sábado, 30 de maio de 2009

HISTÓRIA DA BIBLIOTECA

O Padre António Francisco d’Andrade (Abbade Colado dos Arcozellos), no seu livro Descripção e História do Concelho de Moimenta da Beira, 1926, pág. 74, escreveu: “Outro edifício que n’este sítio se destaca, dando brilho ao largo do Convento, é a casa da família Guedes...”.
A Casa das Guedes é um edifício nobre situado no Terreiro das Freiras, em Moimenta da Beira, em perfeito enquadramento urbano, em grande largo inclinado para Este e flanqueado por estrada e pelo Convento de Nossa Senhora da Purificação a Sul, edifícios de dois pisos, alguns senhoriais, arruamentos e estacionamentos automóveis a Norte e Oeste.
Imóvel de interesse público, pelo Dec. n0 28/82, DR 47, de Fevereiro de 1982, o Solar das Guedes é um edifício da segunda metade do século XVIII. Jerónimo de Gouveia de Sarmento Falcão e Josefa Benedicta Pereira de Vasconcelos (bisneta de Pedro Gomes Cortês) mandaram construir para si a Casa das Guedes. Em 1874, foi herdada por uma bisneta do casal do fundador, D. Carolina Cândida Guedes Osório de Gouvea e Vasconcelos.
Em 1925, D. Carolina morre sem descendentes, legando a Casa à Câmara Municipal de Moimenta da Beira, com a intenção de aí se fazer um hospital ou escola, por testamento feito a 25 de Outubro de 1923, que transcrevemos do Jornal Correio Beirão, n.0 162, de Outubro de 1962:
“Testamento de Carolina de Gouvea Vasconcelos e Castro, no dia 25 de Outubro de 1923...
Que dispõe todos os seus bens ou valores à Câmara Municipal de Moimenta da Beira ou qualquer outra corporação que porventura a represente de futuro para que nesta vila ou arredores onde a Câmara melhor julgar ser construído um edifício para Hospital. Se todo o produto da herança da testadora não chegar para a construção do referido edifício poderá tal produto ser junto a qualquer subsídio da Câmara ou ainda a fundo ou benefícios de qualquer natureza que possam ter igual destino.
Se com o produto da herança da testadora mesmo ajudado pela Câmara não for possível construir o edifício do hospital, em tal caso a Câmara empregará todo o produto desejando a testadora que ele seja o mais higiénico e confortável para as crianças e no caso de chegar que a escola seja dotada com todo o mobiliário. O edifício da escola deve ser nesta vila e era vontade da testadora que a escola tivesse o nome de Escola Carolina Guedes. Que o edifício do hospital ou na sua falta o da escola deverão ser construídos dentro de dez anos a contar do falecimento da testadora... Que as despesas de funeral e bens de alma sairão do produto da herança. Que institui para seu testamenteiro para o cumprimento deste testamento o Presidente da Câmara do Concelho de Moimenta da Beira ou quem legitimamente o represente”.Que destino para a Casa das Guedes?
Porém, nada resultou, e o sonho de D. Carolina, hospital para doentes ou “escola confortável para crianças” diluiu-se na erosão da vida sociopolítica de Moimenta, entre a frustração nostálgica de um Povo que continua a queixar-se. A 8 de Julho de 1962, o Jornal Correio Beirão publicava o seguinte edital: “Joaquim Guilherme de Araújo e Abreu, Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira: Faço público que, pelas 16 horas do dia 28 de Agosto do ano corrente, no edifício dos Paços do Concelho e Sala de Reuniões da Câmara Municipal, se procederá à venda, em hasta pública, do imóvel «CASA DAS GUEDES» pertencente ao município:
Prédio urbano de dois pavimentos, situado no Terreiro das Freiras, inscrito na matriz predial urbana de Moimenta da Beira sob o artigo 289, confrontando de Norte com a Rua da Revolução Nacional, nascente com o Terreiro das Freiras, Sul com Câmara Municipal e poente com José Félix.
A base de licitação é de 100.000$00, com lanços não inferiores a 1.000$00. As condições de venda encontram-se patentes na Secretaria da Câmara Municipal, durante horas de expediente. Para constar se passou o presente edital e outros que vão ser afixados nos lugares de estilo.
Moimenta da Beira e Paços do Concelho, aos 2 de Julho de 1962".
Na mesma data, o mesmo Presidente da Câmara mandou escrever na parede da escola da vila “ESCOLA PRIMÁRIA D. CAROLINA GUEDES” - acto de justiça para a generosa benemérita, ou tentativa de cumprir o seu testamento e satisfazer as vozes discordantes que, naturalmente, se fizeram ouvir.
Para amenizar esta narrativa, vale a pena referir um episódio dos primeiros anos da década de 50. Na altura, era Presidente da Câmara o Dr. José Gomes Machado. Criou-se a Santa Casa da Misericórdia com o objectivo de construir um hospital em Moimenta da Beira, já há muito desejado.
António Loureiro Melo era empresário de um cinema ambulante e dono de altifalantes que nas festas e recepções ampliavam a sublime retórica dos discursos e transmitiam música para o Povo. Numa dessas transmissões festivas, falou da venda da Casa das Guedes e, logo ao outro dia, fez aparecer na vila pequenos cartazes com a seguinte publicidade: “RÁDIO MELO ANUNCIA: VENDE-SE CASA DAS GUEDES; FINS FRUTUOSOS”.
Mais uma vez, o Hospital ficara pelo caminho! Porém, receava-se que a Casa das Guedes fosse parar às mãos de qualquer endinheirado, o que acabou por levantar protestos.
O Jornal Correio Beirão, jornal respeitado, de crítica e de estímulo, que a política viria a calar, representado pelo Padre Bento da Guia (seu director e proprietário) e pelo Dr. Baptista Ferro (redactor), lembraram que a Casa das Guedes poderia vir a ser Palácio da Justiça, Grémio da Lavoura, Cinema, Museu, Biblioteca Pública, Caixa Geral de Depósitos, Sede do Clube, Casa do Povo, etc...
Citando o Jornal Correio Beirão datado de 8 de Outubro de 1959, Frederick C. Hesse Garcia, professor titular da Academia Militar de West Point, nos Estados Unidos da América, refere no apên-dice do seu livro “Aquilino Ribeiro, um Almocreve na Estrada de Santiago”, publicado em 1981, que já nessa altura se falava da possível “edificação de uma Biblioteca Pública em Moimenta da Beira” e “propunha-se o nome de Aquilino Ribeiro como Patrono”.
As terras têm deveres para com os seus filhos ilustres. Soou a hora de Moimenta saldar a sua dívida para com o escritor de Soutosa. Mostremos aos vindouros, através de uma obra útil, o prazer, o orgulho e a gratidão, que a sua personalidade projectou sobre nós.
No dia 29 de Setembro de 1962, o Grémio da Lavoura presente na pessoa do Inspector reformado José António Cardoso Teixeira, dos Arcozelos, Presidente da Direcção do mesmo Grémio, arrematou a Casa das Guedes por 101.000$00. O Grémio da Lavoura restaurou o edifício e ali funcionou “fidalgamente instalado” até ao 25 de Abril de 1974. A Revolução dos Cravos decidiu que em Portugal não havia lugar para grémios, e a Casa das Guedes, como parte integrante do activo do condenado subproduto das ditaduras, entrou na posse da Cooperativa do Távora: acto pacífico, aliás totalmente aceitável, dado que eram sensivelmente os mesmos, os sócios de um e outro organismo e, também, não se distanciavam muito os objec-tivos que a ambos animava, o melhor lucro dos produtores. A Cooperativa do Távora instalou na Casa das Guedes, o Departamento de Compra e Venda e o respectivo armazém. Em 1984, o edifício tornaria à posse da Câmara Municipal de Moimenta da Beira.
Voltando um pouco atrás, não perdendo o fio à meada, no dia 8 de Março de 1963, noticiando as homenagens nacionais projectadas para o Cinquentenário do “Jardim das Tormentas”, o Jornal Correio Beirão reavivava a ideia da Biblioteca Aquilino Ribeiro. Cinco anos já se haviam passado desde as primeiras manifestações de apoio, sem realizações concretas exemplificando talvez a afirmação de Mestre Aqulino, quando dizia que “Portugal era terra boa para vinha e cebola, porém menos propícia para as letras”. Um ano mais tarde, numa altura em que o escritor já tinha falecido, foi ventilada a hipótese pelo mesmo periódico, de à Biblioteca se juntar a edificação de um monumento em homenagem ao insigne homem das letras portuguesas.
Em 1964, as autoridades camarárias não mostraram entusiasmo pela criação de uma Biblioteca, nem mesmo pela presença de um monumento. Ao interesse do Jornal Correio Beirão no sentido da tão ambicionada Biblioteca, a edilidade local respondia num ofício com data de 15 de Dezembro de 1964 que, “ponderado convenientemente o assunto foi deliberado negar o patrocínio a tal iniciativa por não se reconhecer motivo e volume para a mesma”. Ficava em suspenso a possibilidade de algum dia existir em Moimenta um museu com a sua Biblioteca, onde poderia “uma sala ser destinada a Aquilino Ribeiro e onde poderia ser colocado o seu busto”.
Nem mesmo uma homenagem póstuma ao escritor, que chegou a ser equacionada pelos seus admiradores moimentenses, mereceu a devida anuência por parte da Câmara Municipal. Segundo um ofício da edilidade, invocava-se como motivos para a recusa da instalação da Biblioteca, bem como da homenagem ao escritor e do erigir de um monumento com o nome do mesmo, os factos de “não se tratar de um natural do concelho cuja memória se deva perpetuar para exemplo dos filhos da terra” e “não se conhece de interesse público que tenha executado ou legado ao concelho para benefício dos seus filhos”.
Como diria Frederick Garcia, “cinquenta e mais anos de actividade intelectual, dobrado sobre a banca de escritor, conquistando glórias para si mesmo e para a língua portuguesa, levando as Terras do Demo a correr mundo, alinhando com os grandes de todos os tempos, estudando o passado, criando e recriando – e nada disso valeu como exemplo, nada de interesse público...”. O apoio às salutares propostas do Museu, da Biblioteca e do monumento poderia ser interpretado como reconhecimento oficial. Por isso, “era mais cómodo, evidentemente, afastar a questão”.
Os rotários portugueses erigiram um pequeno monumento dedicado a Aquilino Ribeiro, em Soutosa, onde hoje se encontra a sua Casa-Mu-seu, outrora considerado o seu tegúrio espiritual. A ideia da Biblioteca, pese embora os muitos avanços e recuos, é hoje felizmente uma realidade e, paradoxalmente, a sua existência é não só uma homenagem ao excelso escritor como aos idealistas que viram os seus desígnios concretizados contra ventos e marés. Com a criação da Biblioteca, os seus proponentes e entusiastas, esperavam tornar o livro acessível aos que não tinham hábitos de leitura, sempre tendo em mente o lado positivo da vida, os aspectos superiores do espírito e uma constante esperança de elevação do Homem. No fundo, para esses idealistas que estiveram na génese da ideia de uma Biblioteca Pública em Moimenta da Beira, um epaços deste género é, claramente, para o bem de todos e não apenas daqueles que já têm o domínio da leitura e as suas colecções privadas.
Verdadeiro exemplar de arquitectura civil privada, estilo rococó, na sua utilização inicial, passou a ser uma instituição pública municipal, de expansão da Cultura - a Biblioteca com o nome de Aquilino Ribeiro, que tanto se desejava desde meados do século XIX.
É uma casa solarenga com grande aparato na fachada principal, onde se salienta o seu brasão com a coroa ducal, os dois portais flanqueados por pilastras em oblíquo, com volutas cimeiras a apoiar varandas de balcão, curvilíneas, com balaústres e as janelas de frontões de formas dinâmicas pluri-segmentares. No interior do segundo piso, destacam-se dois tectos com pinturas rococó, com enquadramentos de volutas finas e motivos de forma auricular, considerados únicos na região.
Edifício nobre que nos parece incompleto ou parcialmente destruído, pois faltava-lhe do lado direito um corpo que faça simetria com o lado esquerdo uma vez que, quando foi construído, não existia a estrada que lhe passa ao lado e não encontramos explicação para este “defeito” que não consta tenha sido causado pelas invasões francesas, como aconteceu ali a uns metros de distância, no Palácio dos Sarmentos. O interior do edifício ainda hoje transborda saudade dos retratos de família que morreram para sempre. A Família Guedes foi, de facto, uma dessas famílias que passaram por Moimenta, aqui viveram envolvidas em superior auréola social e desapareceram deixando atrás de si uma campa abandonada, uma casa em ruínas ou simplesmente nada...
Esta família tinha raízes seculares: José Sarmento de Vasconcelos, fidalgo da Casa Real, Cavaleiro da Ordem de Cristo, administrador do vínculo de Trevões, era de uma nobre família de Algoso, no Concelho de Moncorvo, onde nasceu. Veio a ser Capitão-Mor de Moimenta da Beira, e casou com D. Maria Josefa de Carvalho e Castro Salvador, herdeira dos vínculos de Paradinha, Pinhel e Alverca. Deste casal descendem os Viscondes de Moimenta da Beira.
O último descendente foi uma senhora, D. Carolina Cândida Guedes Osório de Gouvea e Vasconcelos, nascida a 13 de Dezembro de 1874, que foi herdeira da Casa de seus pais - a Casa dos Guedes, designação inicial, substituída mais tarde pelo sufixo “das” -, e veio a falecer solteira no dia 30 de Março de 1925, no Porto. O seu corpo seria trasladado para Moimenta, em cujo cemitério seria sepultada no dia 14 de Março de 1926. Desta família, o único representante foi o Sr. Pedro Guedes Osório de Vasconcellos, residente em Paradinha.
Foi esta a “Família Guedes de Moimenta da Beira”, como lhe chama Pinho Leal no artigo do seu «Portugal Antigo e Moderno», ao falar de Sendim: “É nesta freguesia o Solar dos Guedes, de Moimenta da Beira, e têm aqui uma casa muito antiga e uma quinta de plátanos gigantes”. Em nota do mesmo artigo, Pinho Leal diz ainda ser convicção sua que o povo de Guedieiros se chama assim “por ser do senhorio dos Guedes”.
Por último, cabe aqui uma referência ao brasão da Família Guedes. Trata-se de um escudo esquartelado e tem no primeiro quartel, as armas dos Sarmentos; no segundo, que é esquartelado também, as dos Menas e as dos Falcões; no terceiro quartel, as dos Vasconcelos e no quarto, as dos Gouveias. O escudo gravado nas peças da baixela tem no primeiro quartel, as armas dos Gouveias; no segundo, as dos Vasconcelos; no terceiro, as armas dos Falcões; e no quarto, as dos Menas. O escudo da Casa é encimado por uma coroa ducal; e o escudo da baixela tem o timbre dos Gouveias.

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